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domingo, 20 de janeiro de 2013

O que era sonho agora é concreto

A maior parte já está pronta e até o fim deste mês todo o percurso deve ser, enfim, liberado

"Quando eu for eleito..." E lá vinha promessa de duplicação da BR-392. Nas últimas décadas, a cada ano eleitoral, a cada político se candidatando parecia mais próximo o início das obras na rodovia entre Pelotas e Rio Grande. Mas as campanhas foram passando, o fluxo de veículos foi aumentando (já são dez mil por dia), o tráfego foi virando um caos e nada de aparecer a placa de "homens trabalhando na pista". Somente em novembro de 2009, depois de muitas licitações, estudos, projetos e licenças ambientais, o sonho literalmente começou a virar concreto. De lá para cá, centenas de máquinas e operários passaram a trabalhar no crítico e abarrotado trajeto de 52 quilômetros entre a ponte sobre o canal São Gonçalo e o trevo de acesso aos Molhes da Barra. A maior parte (31 quilômetros) já está pronta e até o fim deste mês todo o percurso deve ser, enfim, liberado.
O anúncio foi feito nos últimos dias pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Segundo o engenheiro e fiscal dos contratos de duplicação da BR-392, Vladimir Casa, apenas os dois pequenos trechos - de aproximadamente um quilômetro cada - que contornam os viadutos do Povo Novo e da Vila da Quinta ainda continuarão funcionando em pista simples, pelo menos até o meio do ano. "Infelizmente, alguns contratempos técnicos nos obrigaram a refazer certos detalhamentos do projeto, como fundações e profundidade das estacas", explica Casa, justificando o atraso de seis meses da previsão inicial.
Todavia, independentemente da prorrogação do prazo, os motoristas estão comemorando, e muito, o resultado das obras. Pois mesmo antes das elevadas estarem concluídas ou do restante da pista ser liberado, os impactos positivos da duplicação já são gritantes. Com 31 dos 52 quilômetros disponíveis para o trânsito, a viagem dos caminhoneiros, por exemplo, encurtou em meia hora, passando de 75 para 45 minutos de duração.
E a tendência é de que esse tempo diminua ainda mais a partir do próximo mês. De acordo com o diretor da Central de Fretes do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Bens de Rio Grande (Sindicam), Roni Luís Nave, assim que os últimos trechos forem liberados, não deve demorar mais do que 35 minutos para se deslocar entre os solos pelotense e rio-grandino.

Menos tempo, mais economia e segurança
Além de poupar tempo, os condutores, em especial os de caminhão, já estão economizando (e vão economizar ainda mais) com os custos do transporte. Porque tráfego com maior fluidez, como acontece nas faixas duplas, é sinônimo de menor consumo de combustível e menor desgaste do veículo, principalmente de pneus e lonas de freio. E o melhor: os riscos também diminuem.
"A redução (de acidentes) vai se dar por não termos tantos cruzamentos rodoferroviários e acessos irregulares", projeta o chefe da 7ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Mário Zenini. Ele se refere aos viadutos sobre as linhas de trem e à padronização dos retornos e trevos. Fora isso, quando sentidos diferentes são percorridos em faixas diferentes, a colisão frontal entre veículos é praticamente extinguida e, dessa forma, se evita o "mais fatal dos acidentes", conforme lembra o patrulheiro. Aquele choque entre um caminhão e uma van, por exemplo, que ocorreu no início do ano passado e matou cinco funcionários da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), não teria acontecido se os motoristas não estivessem na mesma via.
Ainda não existem estatísticas para comparar analiticamente o antes e o depois do caminho parcialmente duplicado. Mas, somente com a liberação dos primeiros trechos, Nave já percebe uma queda muito grande no número de ocorrências. "Deve ter diminuído pela metade", arrisca o diretor do Sindicam. E ele emenda: "O motorista se sente muito mais seguro ao trafegar hoje e essa própria tranquilidade em dirigir facilita o serviço".

Mais obras
O trajeto previsto para ser liberado este mês corresponde aos lotes 2 e 3 do projeto de duplicação. Além deles, tem o Lote 1, em fase inicial das obras e o Lote 4, que deve ser licitado em abril. Este último, aliás, é a mais nova grande reivindicação dos transportadores. Ele corresponde aos oito quilômetros entre o início da BR-392, na zona portuária, e a bifurcação de acesso aos Molhes da Barra. O percurso não é muito extenso, mas causa uma dor de cabeça danada para quem está atrás do volante.
Como nessa área têm estaleiros, indústrias de fertilizantes, estação ferroviária, terminal marítimo da Petrobras e o Superporto, é claro, nos horários de pico o trânsito simplesmente congela. E não é para menos, afinal, são cerca de 5,5 mil funcionários entrando e saindo do trabalho todos os dias. "À tardinha, para percorrer esses poucos quilômetros chega a demorar duas horas", relata o diretor operacional do Sindicam, Gregori Rios, responsável por controlar o transporte interno dos caminhoneiros em Rio Grande. Por isso, a comunidade vem pressionando o poder público e já ouviu do diretor geral do Dnit, Jorge Ernesto Fraxe, a promessa de que o edital para contratar os serviços de duplicação sai em três meses.

Contorno de Pelotas
Por outro lado, o Lote 1, o outro gargalo remanescente, está em obras. O trecho chamado de Contorno de Pelotas vai desde a ponte do canal São Gonçalo até a ponte sobre o arroio Pelotas, conhecida como Ponte do Retiro. São oito quilômetros contemplados na BR-392 e o dobro na BR-116, totalizando 24 quilômetros de duplicação.
A obra é bem menor do que a executada até agora, mesmo assim vai demorar tanto quanto ela, pois o trajeto requer uma série de intervenções mais complexas. Ao todo, serão duplicadas três pontes (arroio Pelotas, barragem Santa Bárbara e canal Santa Bárbara) e construídos 11 viadutos. Assim, nenhum cruzamento, como os encontros das avenidas Fernando Osório, Duque de Caxias e Cidade de Lisboa, ou os trevos da Fenadoce e da Oderich, por exemplo, vai atrapalhar o trânsito na via principal. As obras começaram em agosto do ano passado e recém atingiram 10% da execução. Mas a perspectiva é de que o trabalho dos operários e das escavadeiras dure, no máximo, três anos.

Gestão ambiental
Além do barulho dos trabalhadores e das máquinas, há uma grande e silenciosa operação de Gestão e Supervisão Ambiental sendo realizada na duplicação da BR-116/392. Para atender à legislação vigente e às premissas do Dnit em relação aos cuidados com o meio ambiente, foi criado um Plano Básico Ambiental. Ele tem 18 programas, criados e executados para minimizar o impacto das obras sobre a natureza da região. Só no ano passado, por exemplo, os projetos de Supressão de Vegetação e de Resgate de Germoplasma transplantaram 524 árvores dos lotes 2 e 3, na BR-392. Entre as espécies nativas, a maioria era de butiazeiros (254), seguida de corticeiras-do-banhado (195) e figueiras (42). No Contorno de Pelotas (Lote 1), já foram realizados 66 transplantes e, segundo a previsão do inventário florestal para o trecho, este número deve subir para 590 até o fim das obras.
Assim como a flora, os animais também recebem atenção especial. Capivaras, graxains e aves são constantemente controladas pelo Programa de Levantamento, Mitigação e Monitoramento dos Atropelamentos de Fauna. Durante o trabalho, inclusive, a equipe da supervisão ambiental encontrou uma espécie de serpente que ainda não tinha sido registrada na porção sul da Planície Costeira: a Chironius bicarinatus, conhecida popularmente como cobra-cipó. Em outra investida, no Programa de Identificação e Salvamento de Bens Arqueológicos, foram encontrados indícios da existência de sítios pré-históricos nos arredores da rodovia. São vestígios da tradição ceramista Tupi Guarani e da tradição Vieira, dos índios que ocupavam a região há mais de 2.500 anos, sendo considerados os primeiros humanos a habitar a área onde hoje situa-se o município de Rio Grande.
(Por: Leonardo Crizel - imagem Carlos Queiroz - DP)

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